Entre discursos de poder, silenciamentos e uma perna cabeluda, existe o agente secreto | Cine 330
02 marçoFinalmente assisti ao filme O Agente Secreto, confesso que já estava com FOMO (fear of missing out / medo de perder algo), mas a espera foi ...
Finalmente assisti ao filme O Agente Secreto, confesso que já estava com FOMO (fear of missing out / medo de perder algo), mas a espera foi boa, talvez até uma providência de forças divinas, pois acabei assistindo com a minha mãe e a experiência adicionou camadas importantes ao momento. Vou separar a publicação em dois momentos, onde primeiro darei um panorama sobre o filme sem spoilers, e em seguida quero aprofundar alguns pontos que chamaram a minha atenção e terá informações sobre o filme, sendo recomendado prosseguir com a leitura caso já tenha assistido ao filme, ou simplesmente não se importe com os spoilers, juro que vou sinalizar ao longo do texto.
Mais um filme impecável do Kleber Mendonça Filho, responsável pelo roteiro e direção de Agente Secreto, com atuação do Wagner Moura fortalecendo PE-BA, uma ponte cultural muito importante no encontro entre Pernambuco e Bahia. O filme se passa em Recife, em meio à ditadura civil-militar em 1977, onde, em três atos, acompanhamos um personagem buscando refúgio na cidade. Através do seu dia a dia, vamos descobrindo mais sobre a situação em que se encontra, como se conecta com o regime ditatorial e como esse período marcou a cidade e sua população. Alguns pontos altos, sem dar spoilers, são como a ambientação passou a sensação de rotina em meio ao período violento em que todos se encontravam, a todo momento a violência é parte presente, mas a tentativa de naturalização e desumanização mostra como momentos históricos acontecem e só quando se tornam históricos pensamos "como essa atrocidade aconteceu?", em paralelo com os tempos atuais, estamos aqui vivendo nossas vidas e resolvendo problemas, mas existem guerras e genocídio acontecendo, inclusive militares genocídas tirando férias na Bahia após participarem ativamente do assassinato de pessoas inocentes na Palestina. Aos que ainda não assistiram ao filme, deixo a minha recomendação. A seguir, teremos spoilers!
Para os que escolheram a via do spoiler, enquanto 'Ainda estou aqui' aborda o mesmo recorte histórico, mostrando a perseguição política e a realidade de uma família de classe média alta no Rio de Janeiro, 'O Agente secreto' traz essa perspectiva para o nordeste e a perseguição política dentro do âmbito acadêmico, mesclando passado e presente ao narrar a história na perspectiva do personagem perseguido no passado, e pesquisadores no presente estudando o passado por meio de relatos. Isso se transformou em algo meio mágico para mim, e até confesso que arrancou algumas lágrimas ao atravessar uma realidade que vivencio constantemente devido à minha própria trajetória acadêmica. Na temporalidade do passado, temos a história do Armando, que precisa adotar uma nova identidade como Marcelo. Ele era responsável por um grupo de pesquisa, que está desenvolvendo tecnologias de interesse público, mas também do setor privado. E, no embate de interesses, uma pessoa envolvida em ambos os setores resolveu eliminar o Armando, mas antes disso se certificou do desmonte da educação pública com uma justificativa xenofóbica, afirmando que no nordeste não se faz ciência. Os impactos da perseguição ao personagem refletem na perda de sua identidade e, consequentemente, na sua família.
No tempo presente, o filme mostra duas pesquisadoras estudando um acervo de fitas com gravações de áudio de reuniões feitas por um grupo de pessoas que auxiliavam a fuga de pessoas perseguidas pelo Estado. O Armando é mais uma dessas vozes nas fitas, trazendo para as pesquisadoras um relato fragmentado dos acontecimentos, nos fazendo refletir sobre quantas outras histórias estão relegadas ao esquecimento, e quantos acontecimentos históricos estão suscetíveis à repetição por falta de rememoração do passado. Trazer o encontro da pesquisadora com o filho do Armando aborda duas questões: a proximidade do momento histórico com o momento em que vivemos e o papel do pesquisador ao trabalhar com memórias dolorosas. O filme entrega um resgate de memória que atravessa questões atuais como o papel do pesquisador, a importância e atuação da ciência na sociedade e como tudo entra em vulnerabilidade dentro de um governo ditatorial.
Outro personagem que aparece no filme é a Perna Cabeluda. Aos que não conhecem, devem ter sido pegos de surpresa no filme, sem entender o que diabos era aquela perna chutando todo mundo. Ela faz parte das lendas urbanas de Recife e sua história é incerta, mas no período da ditadura ela foi citada várias vezes nos jornais, podendo ser associada a denúncias sobre a violência policial. Por isso, naquela cena no Parque Treze de Maio, podemos interpretar que o ataque à população que estava praticando "amor livre" era mais um retrato da truculência policial.
A experiência de ver esse filme com minha mãe foi um complemento. Ao assistir, ela recordou de sua adolescência em Recife, dos cinemas de rua, do carnaval e figuras como La Ursa e os Papangus que aparecem em determinados momentos, até o parque onde aconteceu o ataque da perna cabeluda fez parte das aventuras dela. Foi rico perceber o filme através dessa perspectiva de lembrar da infância, ao mesmo tempo que ela acessava uma história sobre onde nasceu e em um período em que ela tinha dois anos, quebrando essa sensação de distância entre nossa realidade e um passado que retratam como distante, mas não é. Também foi sensacional conversar sobre o que tanto eu estudo e a importância da pesquisa nas ciências humanas para a sociedade.

























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