Relatos sombrios | Essa publicação é baseada em fatos reais
31 outubroNa publicação com dez curiosidades sobre mim, eu disse que amo histórias sobre espíritos e que tenho as minhas próprias histórias. A Carol do blog Medianerax pediu nos comentários para que eu compartilhasse essas histórias, e por que não aproveitar o Dia das Bruxas para trazer esses momentos? Os últimos dias foram afundados num nacionalismo gostoso em que lembramos, em coletividade, como é bom ser brasileiro, e o Halloween sempre foi uma data à qual gostei de dedicar o mês inteiro aos filmes de terror e a uma TBR voltada para esse clima. Mas, inevitavelmente, a coisa foi perdendo o brilho. Não sei se é a falta de identificação com o feriado internacional, ou se eu tô inevitavelmente decolonial depois de tanto estudar. Mas esse ano me peguei lembrando de como o brasileiro incorpora as coisas ao seu dia a dia, desde receitas abrasileiradas até o movimento antropofágico, e resolvi que vou dar um jeito de viver um mês sombrio sem me dar uma indigestão com referências que em nada dialogam com a minha realidade. Esse ano ficamos com histórias.
Eu cresci escutando histórias, e uma grande responsável por isso foi a minha mãe, que durante a minha infância gostava de criar um clima de suspense e contar lendas urbanas que um dia alguém contou para ela. Às vezes ao céu aberto com uma fogueira, outras num quarto escuro. Foi assim que ouvi sobre a loira da BR, sobre sonhos estranhos e o Zé do Caixão. As histórias que escrevo hoje não são lendas urbanas, são histórias reais que compartilho para lembrar que existem coisas para além da nossa compreensão. Então apague a luz e venha comigo.
O pesadelo
Eu tinha oito anos quando tive esse sonho. Dividia a beliche com a minha irmã mais nova e lembro vividamente dos detalhes. Estava em um lugar desconhecido, era dia e, ao meu redor, tinha uma linda casa de alpendre. As paredes eram brancas, e as vigas de madeira em um tom escuro combinavam com um balanço de dois lugares na varanda. Na frente havia uma piscina abandonada e, próximo, um poço. A casa era cercada por uma mata verde, era lindo e pacífico. Havia muito silêncio, exceto pelo grupo de pessoas que me acompanhava para ver a casa, que estava fechada. Alguém estava nos guiando, minha irmã estava comigo, junto com três parentes. Enquanto olhávamos o exterior da casa, duas meninas surgiram. Seus rostos estavam cobertos pelos fios de cabelos pretos, que estavam molhados e grudados em seus rostos. As duas pareciam ter a mesma idade, usavam o mesmo vestido branco, a pele de ambas variava entre tons de cinza e roxo, e as presenças sombrias mudaram o ambiente. Agora a casa não era mais pacífica, o silêncio foi substituído por uma vontade de fugir, e foi o que eu e minha irmã fizemos. Nós corremos sem rumo e as meninas continuavam nos perseguindo. A ansiedade e o medo me preencheram a ponto de me fazer acordar. Meu coração batia forte, eu sentia a adrenalina e um pouco do medo. Aos poucos a respiração normalizou e sorri ao perceber que havia sido apenas um pesadelo. Minha irmã sempre foi minha companheira de terror e eu sabia que ela iria adorar ouvir sobre aquele sonho quando acordasse. Esperei até que ela surgisse na cozinha em busca de café e comecei a compartilhar a história:
- Você não vai acreditar no sonho que tive!
- Eu tive um sonho estranho. Conta o seu.
Enquanto ela se servia, comecei a falar sobre ela estar comigo em uma casa estranha no meio do nada. Ao ouvir, seus olhos surpresos encontraram os meus e então ela disse:
- A casa era branca?
- Era...
- E tinha um balanço de madeira na varanda?
- Tinha...
- E as meninas?
- Também.
O silêncio foi tudo o que restou enquanto nos encarávamos. Resquícios do medo voltaram. Era possível sonhar o mesmo sonho? Pior, o mesmo pesadelo? Não tocamos mais no assunto, fingimos que era normal, uma coincidência, até um tipo de telepatia exótica entre irmãs com três anos de diferença. Nenhuma explicação fazia sentido, então só deixamos esse pesadelo cair no esquecimento. Alguns meses depois, um tio nos levou para visitar um conhecido no interior. Passamos a manhã em sua casa até que nos convidaram para conhecer o sítio. O tal amigo era caseiro em um interior e nos levou para conhecer a propriedade, que era linda, com tantas árvores. Enquanto seguia ao lado da minha irmã observando a paisagem, o caseiro começou a contar a história da família que havia ido embora há anos, depois de um acidente. Ao olhar para frente, senti um arrepio percorrer meu corpo. Era a casa, com suas paredes brancas, com a varanda, o seu balanço de madeira e a piscina abandonada. Não consegui dar o próximo passo, meus olhos se encheram de lágrimas e encarei a minha irmã, que estava ao meu lado, tão chocada quanto eu. O caseiro seguiu contando a história: o acidente tinha sido a morte de duas filhas e, após o ocorrido, foram embora e a casa permaneceu fechada. O sonho que era pesadelo, compartilhado com minha irmã, não era só um pesadelo: tinha sido real. Continuei olhando para a minha irmã enquanto sussurrava:
- Tu vai?
- Eu vou! Tu não vai não?
- Eu não!
Me despedi dos que seguiriam com a visitação e voltei para a casa onde estávamos hospedados. O medo estava comigo, o coração batendo mais forte e a curiosidade absurda para saber o que minha irmã tinha visto lá. Quando ela retornou, estava séria. Perguntei se era mesmo a casa do sonho e ela disse que sim, era tudo igualzinho. Assustadas, voltamos ao silêncio, deixaríamos aquele assunto cair no esquecimento de vez. Não havia explicação, era o que era e pronto. Eu não voltei mais naquela casa, tampouco a minha irmã. Não sonhei mais com aquele lugar nem com as meninas. No entanto, minha irmã esporadicamente sonhava com elas, acordava cansada e confessava que tinha sido novamente perseguida por elas no sonho, até que, enfim, elas sumiram.
O baque
Sempre tive a sensação de não estar só. A falta de privacidade era um pensamento recorrente quando pensamos que os espíritos estão por aí nos observando. E nesse dia eu tive certeza de que não estava sozinha. Devia ter por volta dos meus 16 anos. Precisei ir ao centro da cidade resolver alguma coisa e, na volta para casa, o caminho mais próximo era seguir pela ladeira que me levaria até o centro comercial. Segui pela calçada. Do meu lado direito havia lojas, enquanto do meu lado esquerdo estava a rua, com pouca movimentação de carros. Enquanto subia a ladeira, passei por uma Doblò cinza que estava estacionada no meio-fio. O fundo do carro havia sido adaptado com equipamentos para funcionar como um chaveiro móvel. Enquanto andava e observava o carro, senti um puxão na parte de trás da minha blusa. A força foi tamanha que me fez perder o equilíbrio e dar dois passos para trás. Assim que recuperei o equilíbrio, olhei para trás tentando descobrir quem havia feito tal gracinha e, para a minha surpresa, ninguém estava atrás de mim. A surpresa ao constatar que ninguém havia puxado a minha blusa foi substituída pelo susto ao ouvir um impacto muito alto. Ao olhar para frente, onde eu estava segundos atrás, uma viga de madeira estava caída entre a calçada e a frente amassada da Doblò. O chaveiro estava em choque. Eu olhei para cima e vi que a viga tinha caído do primeiro andar de uma loja em reforma. O pedreiro também estava em choque. Logo algumas pessoas saíram de dentro da loja e a rua ficou cheia de curiosos, e a única dúvida que me restou foi: quem me puxou?




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