É disso que É o Tchan estava falando quando cantou "essa é a mistura do Brasil com o Egito" | Resenha sem spoiler do livro Em busca do romance perdido
05 outubroEnquanto estudava sobre arqueologia industrial e ruínas do século 19, me perguntei se existiam livros que retratassem a arqueologia como parte da narrativa, assim como o cinema tem feito ao longo dos anos. Essa divagação com influência da procrastinação com os estudos me levou até uma "side quest" de ler livros nada teóricos envolvendo a arqueologia. Em Busca do Romance Perdido foi uma grata surpresa! Já comecei a jornada com literatura nacional, que é algo que aprecio bastante. Também foi meu primeiro contato com a escrita da Karina Heid e fiquei curiosa para conferir outros títulos (principalmente os romances de época que, volta e meia, uso como cura de ressaca literária).
O romance é a versão contemporânea de "O Lorde do Nilo" e mistura aventura arqueológica com romance picante, tendo classificação +18. A história acompanha a Dra. Vívian Saad, convidada para coordenar a maior expedição arqueológica já realizada no Egito. Para poder participar, ela precisa estar casada, ao menos no papel, e escolhe como marido o Dr. Eike Ross, arqueólogo renomado, esquivo e responsável pela escavação, sem imaginar as complicações que essa decisão vai trazer. Eike, por sua vez, está no limite com a pressão de superiores, autoridades egípcias e da imprensa, e recebe um ultimato dos financiadores do projeto: casar com a nova arqueóloga ou perder a coordenação da expedição. É nesse cenário que ele se depara com Vívian, uma mulher que desafia suas ordens, traduz seus documentos e ainda fala árabe fluentemente para a felicidade da comunicação com os jornalistas que fazem parte de uma enorme lista de inimigos do Eike. Quando um antigo papiro surge como pista para uma descoberta extraordinária, os dois precisam deixar as diferenças de lado e trabalhar juntos nas escavações do Vale dos Reis. À medida que a busca avança, a resistência de Eike começa a ceder, e ele se vê obrigado a admitir a crescente admiração por sua esposa de fachada, revelando emoções que julgava não ser mais capaz de sentir. Citando novamente É o Tchan, nessa história não era o califa que estava de olho em decotes.
Foi uma leitura extremamente divertida de fazer, tanto pelo ar de comédia que a autora utiliza para ilustrar as divergências entre os personagens, como também por me fazer em diversos momentos pensar "nem fodendo que isso aconteceria em uma escavação arqueológica" como um romance entre arqueólogos (sou meio cética, rivalidade na arqueologia não acaba em romance, talvez uma ou outra colher de pedreiro voando pelo sítio), ou pior, as cenas +18 acontecendo dentro de uma tumba. Lembrei de todas as vezes que estive em campo extremamente suja, com areia em lugares que nem estiveram expostos, sabendo que animais peçonhentos estão em todo lugar... é como eu disse, nem fodendo.
Em contrapartida, pude me conectar com alguns temas que são abordados para além do romance, como a dificuldade em ser uma mulher na área, sendo alvo de assédio e muitas vezes lidando com a preterição ao cargo não por falta de competência, mas por estar suscetível a algum tipo de violência com a qual as empresas muitas vezes não estão dispostas a se envolver. No livro, a Vívian precisou se casar para conseguir o emprego dos sonhos e usar a imagem do marido como uma "segurança" no ambiente de trabalho e, apesar da história usar um país conservador como motivo, infelizmente na vida real até no Brasil temos problemas. Outro assunto que permeia a narrativa é a corrupção e os interesses que se sobressaem à preservação e conservação do patrimônio arqueológico. Nesse ponto, vemos os personagens lidando com um mercado ilegal de venda desses vestígios, e esse tópico infelizmente ainda é uma realidade por aí (aqui no Brasil também, só não tão noticiado), nos fazendo pensar como perdemos enquanto sociedade quando algo não é devidamente pesquisado e disponibilizado para o público em museus. Acredito que a grande conexão com esse livro foi ver nos personagens algo que vejo em mim, a empolgação de se dedicar a algo que é desconhecido. Não só pela curiosidade, mas pela emoção de juntar peças que contam uma história importante não apenas para os pesquisadores, e sim para um grupo enorme de pessoas.





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1 comments
Van eu simplesmente amei o titulo da postagem kk, eu não costumo curtir livro de romance mas como precisamos de pão e circo nesse momento, achei uma boa opção esse romance, se tiver no ku vou tentar ler ainda esse mês
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