Nasce o sol a 2 de julho brilha mais que no primeiro | Livros baianos para comemorar a independência
02 julhoNão dá, é maior que eu a vontade de ficar cantarolando o hino da Bahia do final de junho até o início de julho! Faz uns anos que eu passei a lidar com meu hábito de leitura de forma mais crítica. Quando eu comecei a ler, acabava optando por títulos estrangeiros que estavam famosos, e a maioria disponíveis no catálogo da Avon (quem nunca teve aquelas edições econômicas?). Era uma garotinha no interior, onde a biblioteca da escola, os livros de amigas e a revista da Avon eram os portais da literatura. Reconheço minha parcela de privilégio, principalmente na época em que descobri que meu pai adorava se gabar para os amigos que tinha uma filha leitora e assim, eventualmente, ele liberava a compra de alguns títulos que depois iriam ser emprestados para uma seleta lista de amigos.
Foram uns bons anos lendo títulos majoritariamente estadunidenses (teve a fase romance espírita mas isso é assunto para outra publicação), até que houveram dois momentos chocantes: uma vizinha me presenteando aos 10/11 anos com uma coleção do Machado de Assis e meu fatídico encontro com Clarice Lispector na oitava série (agora é nono ano?). Eu fui ler Dom Casmurro com dez anos, obviamente entendi pouca coisa. Mas eu sabia que o problema era eu e não o Machado, sabia que um dia eu estaria pronta para entender tudo aquilo e resolvi esperar. A Clarice foi mais complicado pois tive que ler A hora da estrela para uma atividade de literatura e fiquei horrorizada! Como assim uma cartomante, um carro e o fim do livro? Eu também finalizei com a sensação de que um dia eu estaria pronta para tudo aquilo. Enquanto não me sentia pronta, fui lendo um monte de coisas estrangeiras até passar por um longo período sem ler nada (um oferecimento graduação em tempo integral). Com a pandemia, a minha graduação ficou meio parada e eu aproveitei esse tempo para voltar a ler. Nesse momento me peguei numa crise, percebi que havia mudado meu gosto literário e precisava descobrir meu novo perfil de leitora.
Foi nesse momento que resolvi expandir minha relação com a leitura. Queria ler, mas ler o quê? Escrito por quem? Sobre o quê? E fui percebendo que existe um mundo de possibilidades. Passei a ler mais mulheres e hoje em dia tenho uma dificuldade horrível para ler algo escrito por um homem. Também tenho tido preguiça de livros com enredos fáceis e as famosas tropes repetitivas (tem seu valor para momentos de entretenimento mas não consigo viver a base disso). Percebi que era possível me identificar com a história que lia, me reconhecer em páginas que falavam sobre coisas que eu conhecia e assim fui ficando mais próxima da literatura nacional. Como eu sou bairrista, e essa publicação deixou isso bem evidente, nada mais justo do que recomendar livros baianos para você conhecer e celebrar o 2 de julho.
Estrada dos refúgios - Bettina Winkler
Aqui temos um suspense daqueles de prender a respiração: aos 12 anos, Bárbara vê a mãe ser assassinada pelo próprio pai e planeja a vingança. Depois de cumprir seu objetivo, é acolhida por um misterioso ex-serial killer britânico que vira "pai adotivo" dela e de mais duas irmãs numa cidadezinha pacata do interior da Bahia. Só que anos depois um novo crime ameaça expor o disfarce da família toda, e o leitor descobre que sangue nenhum é páreo pra esse tipo de segredo.
Uzuri A guerreira de Ketu - Marcos Cajé
No lendário Reino de Ketu, uma antiga profecia está prestes a se cumprir, e ela tem nome: Uzuri. A jovem descobre que sua força de verdade não vem do punho, mas da coragem, da sabedoria e da conexão com suas raízes ancestrais. Ao lado da amiga Mafuane, ela encara desafios que testam tudo o que aprendeu, numa HQ afrofantástica repleta de mitologia, ritual e memória africana, daquelas que você fecha e sente que aprendeu tanto quanto se divertiu. Essa HQ entrou no meu desafio de conhecer novos quadrinhos nacionais, acabei encontrando ela na Bienal do livro Bahia e conheci o autor que é um querido! Fiquei apaixonada por outros títulos dele, inclusive os livros infantis que são o melhor presente que uma criança poderia ganhar.
Versos sólidos que inundam - Isadora Silva
Poesia crua e sincera de quem escreve pra se encontrar. A autora usa os versos pra fazer as perguntas que nunca teve coragem de fazer e responder o que sempre quis ouvir, inclusive da própria criança que já foi. É afeto, é dor, é vivência de uma mulher negra, tudo isso num livro pequeno que promete marcar o leitor. Esse livro vai entrar no desafio Lendo a Bahia representando o Recôncavo.
Torto Arado - Itamar Vieira Junior
Esse não precisa de muitas apresentações né? Torto Arado já se consolidou como um clássico contemporâneo que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e não é à toa. No sertão da Chapada Diamantina, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha faca guardada na mala da avó, e um acidente de infância vai unir (e marcar) as duas para sempre. A partir daí, o livro mergulha na realidade do trabalho análogo à escravidão que ainda existe no Brasil rural, com religiosidade de matriz africana, lirismo de dar nó na garganta e uma reviravolta que só a terceira narradora pode contar. Tem resenha dele aqui no blog mas eu não vou lincar, inclusive parte de mim quer arquivar essa resenha, reler esse livro, e escrever algo que eu goste e saiba que vai envelhecer bem.
A vida e as mortes de Severino olho de dendê - Ian Fraser
Imagina Star Wars se ele tivesse nascido em Salvador. É isso que Ian Fraser entrega: no ano de 2577, no planeta Cabula XI, um investigador particular baiano no espaço tem, no lugar do olho esquerdo, um artefato que revela os últimos instantes de vida de qualquer pessoa. Ao lado do parceiro alienígena Bonfim (que possivelmente tem mais fitinha do Senhor do Bonfim do que as próprias grades da igreja), ele se envolve numa investigação que expõe a corrupção da todo-poderosa Federação Setentrional. Essa opera espacial com trilha sonora de axé, referência de cordel e um gostinho inconfundível de vatapá ganhou resenha aqui no blog e você pode conferir clicando aqui .
Planta oração - Calila das Mercês
Um livro-poema-conto que embaralha os limites entre poesia e narrativa, oralidade e escrita. São quinze contos breves, cada um batizado com o nome de uma árvore ou planta, que homenageiam a relação ancestral entre corpos humanos e natureza. As histórias falam de amor, desamor, violência e afeto, sempre com aquele ritmo cadenciado de mantra ou ladainha que convida o leitor a ler em voz alta. Uma experiência sensorial mais do que uma simples leitura. Esse também vai entrar no desafio Lendo a Bahia, mas representando o território de identidade Portal do Sertão.
Transcendência - Victor Nascimento
Depois que seu pai é levado por criaturas obscuras, Anzo entra para um grupo de caçadores da igreja disposto a exterminar o mal e encontrá-lo. Só que ao conhecer Sasha, uma garota que carrega uma tragédia parecida com a dele, os mistérios se multiplicam e revelam que existe muito mais por trás das bruxas do que ele imaginava. Esse livro vai entrar no desafio Lendo a Bahia no território de identidade Baixo Sul, tive a oportunidade de conhecer o autor em um encontro literário em Valença e achei interessante a proposta de fantasia jovem numa cidade que respira muita poesia.








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