O moço do Uber disse que não deveria me importar tanto com a opinião dos outros | Resumão janeiro de 2026

Resolvi trazer para o primeiro resumão do ano, uma percepção de terceiros que assentou como uma bomba na minha mente: aparentemente eu não m...

Resolvi trazer para o primeiro resumão do ano, uma percepção de terceiros que assentou como uma bomba na minha mente: aparentemente eu não me importo com a opinião alheia. Isso foi um pouco chocante para mim porque eu sei muito bem que internamente não é assim, e não sei se fico feliz por estar conseguindo parecer ser uma pessoa blasé e totalmente independente, ou se deveria reavaliar internamente algumas questões. Em janeiro, um moço do Uber puxou assunto e virou uma sessão de terapia. O tema das inseguranças e incômodos sobre a opinião de terceiros sobre minha vida ocupou nosso tempo no carro e me deixou pensativa pelo resto do mês. Ele chegou a conclusão de que eu deveria me importar menos, ninguém precisa saber o que faço ou deixo de fazer, principalmente porque ninguém está disposto a viver por mim ou colher as consequências das minhas escolhas. Eu não só concordo com tudo que ele disse, como tenho essa consciência. Mas como se manter indiferente? Como ignorar palavras e ações que doem no emocional tal qual limão na ferida?

Para responder a essa pergunta eu iniciei um organograma emocional, esquadrinhando onde dói para concluir o porquê dói. Eis que entre memórias do período de acompanhamento psicológico e alguns ditados que meu pai costumava dizer sobre autossuficiência e responsabilidade individual das minhas ações, problemas e escolhas, cheguei a uma hipótese: eu fico puta com a falta de reconhecimento, não por buscar validação, mas por achar absurdo que ninguém reconheça minhas conquistas. E como um raio, a pior das constatações me afligiu: e por acaso estou reconhecendo minhas próprias conquistas? Como anda minha autoimagem?


Se a percepção do outro sobre mim tá me incomodando, em algum grau eu devo estar acreditando nessa percepção distorcida dos fatos. Essa coisa de reconhecer nossas conquistas é uma conversa que aparece de vez em quando nas redes sociais, até faz a gente refletir no momento, mas geralmente não desencadeia um grande impacto, e nada muda. Vamos vivendo os dias, empilhando listas e mais listas de metas, que ao serem finalizadas, já não deixa aquele ânimo, ou a sensação de realização. É apenas uma meta, agora tenho várias outras me esperando. Viver nesse automático é estranho, é desconectado de tanta coisa, inclusive da própria realidade. Quando saí desse estado cheguei a olhar para as minhas metas em andamento e pensar "onde eu quero chegar com tudo isso?". E nesse processo de acordar desse transe e racionalizar, questionei também a sensação de frustração que sempre me visitava. Como não sentir frustração se nunca vivencio o fim de uma meta? Não existe uma realidade perfeita onde eu vou conquistar tudo e viver feliz para sempre, e sabendo disso, como não ficar frustrada quando não celebro as conquistas do dia a dia? Quando não me dou os devidos créditos por ter me esforçado, por não ter me deixado levar pela procrastinação e a baixa autoestima intelectual que alimenta um questionamento constante sobre minha capacidade. Isso não deveria ser visto apenas como algo a ser celebrado, mas um lembrete constante de que fora dos nossos pensamentos, mas numa realidade tangível, entre as coisas que existem e são fatos, somos capazes. Lembrar desses momentos é o remédio em doses homeopáticas para as inseguranças que paralisam, é preciso rememorar conquistas e o valor delas.

Em algum momento na faculdade, assisti uma aula sobre a nossa percepção do tempo. Como temos a sensação de que o passado está muito distante de nós, mas em realidade, não tem tanto tempo assim. E como nós entendemos o tempo como algo linear, que segue uma progressão de fatos, quando na realidade é algo mais circular, onde eventos se repetem, para manter a memória viva e para marcar a passagem do tempo. Encarar o tempo nessa forma circular me faz sentir que o avanço continua, mas não delimita o fim. Não é linear como a ideia de passado, presente e futuro. É a sensação de repetição sem que seja tudo igual ou garantido. É lembrar que esse resumão marca um ano desse formato de publicação, e relendo o que escrevi no ano passado, me percebo vivendo uma estrutura temporal similar, mas tudo está diferente. Sigo envolvida com meus estudos, mas lidando com outra perspectiva. Se eu voltar para minhas memórias de janeiro de 2023, vou lembrar de como estava desejando viver tudo que tenho vivido. Não foi uma linha temporal, mas um círculo de vivências que me faz ir e vir entre memórias, sentimentos e sonhos. O extraordinário nisso tudo é tirar alguns bons minutos para refletir sobre ansiedades, metas e perceber que já percorremos boa parte do caminho. Não estamos todos os dias saindo da estaca zero e recomeçando as coisas. E o processo de reconhecer isso acontece de forma individual, ninguém fará isso por você. Bom, com exceção do moço do Uber.

Talvez até o Kafka entre nessa conversa, pois ao ler metamorfose me dei conta do assombro que é se identificar com o pobre Gregor. Ter um papel e cumprir as expectativas colocadas por terceiros e tudo ir bem até que você mude, por vontade própria ou algum motivo exterior, como virar um inseto. Então você não cumpre mais um papel, jogou as expectativas pela janela e já não serve mais, não tem um propósito e é descartado. Se Gregor tivesse mais presente em sua própria vida e tomasse as decisões pensando em si, teria tido outro fim? Compensa o peso de sucumbir aos desejos alheios e ainda equilibrar só o fardo das consequências?

Para além dos devaneios sobre inseguranças e opinião alheia, acabei vivendo o mês de janeiro focada em resolver as coisas relacionadas aos estudos e me perguntando "ué, mas eu não estou de férias?". Não li muita coisa, não mexi no crochê, não finalizei meu caderno de leitura do ano, não assistir tanta coisa, particularmente não tenho tido muita inspiração para escrever aqui no blog, mas em compensação tenho publicado algumas coisas nas redes sociais. Talvez seja só mais um começo de ano onde tudo só vai se ajeitar depois do carnaval.


como tem sido seu 2026?

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